São Valentim

Parecia trama do destino, encenada em pleno dia 14 de fevereiro. M. chegou à nossa consulta com perda de visão e sem perceber o que lhe estava a acontecer. Assim que obtivemos as primeiras imagens dos exames feitos ao interior do seu olho foi impossível evitar a primeira reação, um ahhh… escapava da boca de todos quantos viam o resultado do exame.

Em pleno dia de S. Valentim, M. tinha um coração “esculpido” dentro do seu olho. Foi preciso explicar o porquê de tanta admiração, porque este era mesmo um caso raro e, ao mesmo tempo curioso, pela coincidência da imagem com o dia em que estava a ser obtida. Apesar de original, a situação não tinha nada de romântico, havia risco de a zona mais nobre da retina ficar seriamente danificada, comprometendo toda a visão central.

O descolamento parcial do vítreo que, habitualmente, é uma situação benigna, estava a exercer tração sobre a fóvea – a área nobre da mácula. Foi este jogo de forças, com o vítreo solto a exercer tração na retina, que acabou por “esculpir” este coração “perfeito”.

Se o arranjo não fosse desfeito, M. corria o risco de um mau prognóstico, porque a situação poderia evoluir para um buraco na mácula. Naquele momento, ainda havia a possibilidade de retorno.

As comemorações de S. Valentim foram adiadas e a intervenção cirúrgica foi agendada para esse mesmo dia. O cirurgião explicou que teria de destruir aquele curioso coração que teimava em se insinuar. M. não se importou com a simbologia, acabou por sorrir e ficou mais descontraída quando percebeu que a cirurgia iria repor a normalidade. As marcas tecidas por S. Valentim foram eliminadas e esta acabou por ser uma história com um final feliz que iremos continuar a recordar.

Tração vítreomacular, é a designação técnica para esta situação e a curiosa imagem foi obtida por uma tomografia de coerência ótica.